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sexta-feira, 19 de junho de 2009

Filhos terceirizados

Por Varuna Viotti Victoria

"O que é mais importante no relacionamento pais e filhos: quantidade ou qualidade de tempo?

Pesquisas indicam que esta relação está totalmente deficitária tanto na quantidade quanto na qualidade.

Com a entrada cada vez maior da mulher no mercado de trabalho e também com um mercado bastante competitivo, tanto pais quanto mães passam hoje um tempo totalmente inadequado com seus filhos tanto na quantidade quanto na qualidade.

Este processo social e cultural dos nossos tempos parece ser irreversível mas especialistas em educação de crianças levantam um sério questionamento das conseqüências desta ausência cada vez maior dos pais na vida dos filhos. Alguns estudos indicam que em alguns países este contato se restringe a seis minutos por dia.

Com uma quantidade desta de tempo não se pode pretender qualquer tipo de qualidade também.

Em países bastante desenvolvidos a licença maternidade dura até 3 anos e isto indica o quanto os governantes deste países se preocupam com a qualidade de educação de suas populações.

No primeiro ano de vida de uma criança, a presença da mãe é essencial.Até próximo de dois anos a criança se considera praticamente como uma continuidade dos pais e, especialmente da mãe. Não tem ainda uma noção clara de sua individualidade e, é exatamente nesta faixa etária que os cuidados dos pais e os vínculos criados com a mãe são essenciais. Toda criança deveria ter o direito de ter a mãe por um ano dedicada a ela. Todo o seu desenvolvimento nesta fase depende totalmente dos cuidados de um adulto e, vínculos afetivos são essenciais para um pleno desenvolvimento infantil.

O que acontece hoje, é que estes vínculos estão sendo cada vez mais terceirizados.

Como tem que voltar a trabalhar após 4 meses de licença o vínculo que a criança está criando com a mãe passa aos 4 meses para outra pessoa(avó, babá, creche). Nem sempre dá certo uma determinada babá ou creche e assim, este bebê muitas vezes passa por vários adultos diferentes o que dificulta a criação de vínculos emocionais tão importantes para o seu desenvolvimento emocional e afetivo.

È claro que a realização da mulher como profissional é importante e necessária para que ela esteja feliz e possa ter uma boa relação familiar mas, uma mulher que trabalha o dia inteiro dificilmente terá a disponibilidade necessária ao fim do dia para ter uma boa qualidade de tempo para seus filhos.

O ideal é que a mulher enquanto mãe de crianças pequenas trabalhe apenas meio período, o que muitas vezes é impossível por causa do salário necessário para o orçamento familiar.

Resta então algumas alternativas que minimizem um pouco este problema que afeta diretamente a educação e a qualidade de vida de nossas crianças.

A primeira delas é a negociação das mulheres no trabalho para ficarem pelo menos 6 meses de licença maternidade o que a lei hoje permite através da negociação entre mulheres e empresas.

A segunda alternativa, se o orçamento familiar permitir é que a mulher negocie também com a empresa a possibilidade de trabalhar meio período mesmo que isto implique uma redução de salário se a estrutura familiar permitir.

A terceira maneira de diminuir a ausência dos pais na educação dos filhos é a presença e a participação maior do pai nas tarefas domésticas e nos cuidados com os filhos. Dividir responsabilidades melhora a qualidade do relacionamento de ambos com seus filhos.

Os pais precisam também montar um esquema de rotina diária que permita o máximo possível de contato com os filhos; se for possível voltar para almoçar e levá-los à escola por exemplo. Quando chegarem em casa, antes de realizar qualquer tarefa devem dar atenção aos filhos mesmo que seja para sentar e brincar por meia hora antes de tomar banho ou arrumar o jantar.

Quando a criança sente esta disponibilidade nos pais logo ao chegarem em casa ela aceita muito mais fácil limites e regras colocados por eles.
Finalmente, os pais devem entender que compras e consumismo podem aplacar suas culpas mas não substituem carinho, afeto, diálogo e brincadeiras com os filhos.

Se o tempo é curto, é preciso que os pais entendam que necessitam criar o máximo de qualidade possível neste tempo de relação com os filhos.

Caso não tenham esta disponibilidade é melhor pensarem bem antes de terem filhos porque algumas pessoas realmente não têm esta vontade tão forte dentro de si e apenas os têm para cumprir um papel social.

Filhos não são bonecos que podemos comandar como quisermos e exatamente por isso temos que querê-los de fato em nossas vidas. Enchê-los de atividades para ocupar o seu tempo além de estressar a criança faz com que ela sinta que os pais não têm de fato vontade de estar com ela . Vínculos entre pais e filhos devem ser criados nos primeiros anos de vida para que , futuramente, na adolescência e juventude eles realmente reconheçam nos pais pessoas que devem lhes colocar regras e limites porque sempre lhes deram amor ."

in: http://www.indicapira.com.br/padrao.aspx?texto.aspx?idcontent=3894&idContentSection=1948

quarta-feira, 3 de junho de 2009

D E C L A R A Ç Ã O D E B E N S

"O pai moderno, muitas vezes perplexo, aflito, angustiado, passa a vida inteira correndo atrás do futuro e se esquecendo do agora. Na luta para edificar este futuro, ele renuncia ao presente. Por isso, é um homem ocupado, sem tempo para os filhos, envolvido em mil atividades - tudo com o objetivo de garantir o seu amanhã.

E com que prazer e orgulho, cada ano, ele preenche sua declaração de bens para o Imposto de Renda. Cada nova linha acrescida foi produto de muito esforço, muito trabalho. Lote, casa, apartamento, sítio - tudo isso custou dias, semanas, meses de luta. Mas ele está sedimentando o futuro de sua família. Se ele parte um dia, por qualquer motivo, já cumpriu sua missão e não vai deixar ninguém desamparado.

E para ir escrevendo cada vez mais linhas na sua relação de bens, ele não se contenta com um emprego só - é preciso ter dois ou três; vender parte das férias, em vez de descansar junto à família; levar serviço para fazer em casa, em vez de ficar com os filhos; e é um tal de viajar, almoçar fora, discutir negócios, marcar reuniões, preencher a agenda - afinal, ele é um executivo dinâmico, faz parte do mundo competitivo, não pode fraquejar.

No entanto, esse homem se esquece de que a verdadeira declaração de bens, o valor mais alto, aquele que efetivamente conta, está em outra página do formulário do Imposto de Renda - mais precisamente, naquelas modestas linhas, quase escondidas, onde se lê “relação dos dependentes”. Aqueles que dependem dele, os filhos que ele colocou no mundo, e a quem deve dedicar o melhor de seu tempo.

Os filhos são novos demais, não estão interessados em lotes, casas, salas para alugar, aumento de renda bruta - nada disso. Eles só querem um pai com quem possam conviver, dialogar, brincar.

Os anos vão passando, os meninos vão crescendo, e o pai nem percebe, porque se entregou de tal forma ao trabalho - vulgo construção do futuro - que não viveu com eles, não participou de suas pequenas alegrias, não os levou ou buscou no colégio, nunca foi a uma festa infantil, não teve tempo para assistir a coroação da menina - pois um executivo não deve desviar sua atenção para essas bobagens. São coisas de desocupados.

Há filhos órfãos de pais vivos, porque estão “entregues” - o pai para um lado, a mãe para o outro, e a família desintegrada, sem amor, sem diálogo, sem convivência. E é esta convivência que solidifica a fraternidade entre os irmãos, abre seu coração, elimina problemas, resolve as coisas na base do entendimento.

Há irmãos crescendo como verdadeiros estranhos, porque correm de um lado para o outro o dia inteiro - ginástica, natação, judô, balé, aula de música, curso de Inglês, terapia, lição de piano, etc. - e só se encontram de passagem em casa, um chegando, o outro saindo. Não vivem juntos, não saem juntos, não conversam - e, para ver os pais, quase é preciso marcar hora.

Depois de uma dramática experiência pessoal e familiar vivida, a única mensagem que tenho para dar - e que tem sido repetida exaustivamente em paróquias, encontros familiares, movimentos e entidades - é esta : não há tempo melhor aplicado do que aquele destinado aos filhos.

Dos 18 anos de casado, passei 15 anos correndo e trabalhando, absorvido por muitas tarefas, envolvido em várias ocupações, totalmente entregue a um objetivo único e prioritário : construir o futuro para três filhos e minha mulher. Isso me custou longos afastamentos de casa, viagens, estágios, cursos, plantões no jornal, madrugadas no estúdio da televisão, uma vida sempre agitada, atarefada, tormentosa, e apaixonante na dedicação à profissão escolhida - e que foi, na verdade, mais importante do que minha família.

E agora, aqui estou eu, de mãos cheias e de coração aberto, diante de todos vocês, que me conhecem muito bem. Aqui está o resultado de tanto esforço: construí o futuro, penosamente, e não sei o que fazer com ele, depois da perda do Luiz Otávio.

De que valem casa, carros, sala, lote, e tudo o mais que foi possível juntar nesses anos todos de esforço, se ele não está mais aqui para aproveitar isso com a gente?

Se o resultado de 30 anos de trabalho fosse consumido agora por um incêndio, e desses bens todos não restasse nada mais do que cinzas, isso não teria a menor importância, não ia provocar o menor abalo em nossa vida, porque a escala de valores mudou, e o dinheiro passou a ter um peso mínimo e relativo em tudo.

Se o dinheiro não foi capaz de comprar a cura e a saúde de um filho amado, para que serve ele? Para ser escravo dele?

Eu trocaria - explodindo de felicidade - todas as linhas da declaração de bens por uma única linha que eu tive de retirar, do outro lado da folha : o nome do meu filho na relação dos dependentes. E como me doeu retirar essa linha na declaração de 1983, ano base de 82."
(Helio Fraga, jornalista em Belo Horizonte, MG)

Esta crônica consta do livro do próprio autor “A Família, Último Lugar?” (3ª edição) publicado pelas Edições Paulinas. O jornalista Helio Fraga, que foi cronista esportivo, também publicou outros livros relacionados com o assunto narrado na crônica. Entre eles “O Menino Valente” e “Ser Pai”, cujas rendas são recolhidas ao Hospital Mário Penna na capital mineira.

Após fraude com a crônica “ Declaração de Bens ”, as novas edições do “A Família, Último lugar ?” vem saindo com a observação abaixo :

A L E R T A – Esta crônica foi criminosamente falsificada por um psicopata desconhecido. Ao texto original, ele acrescentou que Luiz Otávio morreu drogado e teve uma irmã Priscila, que fugiu de casa. Esta monstruosidade vem sendo divulgada por portais da internet, sujeitos a interdição e ações judiciais por danos morais.

Meu filho morreu aos 12 anos, em novembro de 1982, vítima de tumor cerebral (meduloblastoma). Teve dois irmãos: Marcelo, nascido em 1972, e Ana Cristina, em 1977. Eles estudam, trabalham e moram em Belo Horizonte. A outra irmã jamais existiu.

A falsa “Declaração de Bens” tem sido publicada irresponsavelmente, estando todos os envolvidos sujeitos a processo.
(Hélio Fraga - Jornalista em Belo Horizonte/MG)


in:http://www.velhosamigos.com.br